
Meu amigo, o competente Marco Daniele, que "secondo me" faz atualmente o melhor vinho brasileiro, o FVLVIA Garagem Pinot Noir 2009 que na Confraria dos Sommeliers, introduzido às cegas ficou à frente de exemplares de Nuit Saint Georges e Gevrey Chambertin, fica eufórico a cada reconhecimento de seu experimento de vinho puro e que mostre o terroir brasileiro e não vinhos que se envergonham do que são e querem ser chilenos.
Recebi dele o e-mail abaixo, enviado por um Cliente:
Prezado Marco,
Acabei de fazer um pedido da promoção "Sobrevoando Tormentas" e aguardo resposta para saber a forma de pagamento, contudo gostaria, caso possível, fazer um pedido específico do Fulvia 2009 (Pinot Noir). Gostaria de saber se há um pedido mínimo ou máximo de garrafas.Sou assinante da Prazeres da Mesa e li a matéria do Didu Russo, mas confesso que não dei a devida atenção. No dia de ontem, porém, um amigo enófilo me convidou para um jantar e disse que teria uma surpresa para mim, uma prova às cegas. Bem, aceitei o desafio. Servido o vinho, pela cor, já achava que era um Pinot, os aromas eram complexos. O vinho tinha uma tipicidade inacreditável que somente seria possível ser alcançada na Borgonha. O vinho era estilo europeu, clássico e gastronômico, jamais imaginei que seria um vinho do Novo Mundo. Para minha surpresa e risos de meu dileto amigo Galba era um exemplar nacional. Sinceramente, não acreditei. Nunca vi nada igual em qualquer vinho nacional. Nada que tenha sido feito ou que provei tinha essa qualidade. Pura magia e quero mais, inclusive me cadastrar para comprar em primeira mão, o que vi no site ser possível.
Aguardando resposta, só me resta cumprimentá-lo pelo trabalho que é desenvolvido em sua vinícola.
Atenciosamente,
Luis Claudio Fonseca Magalhaes
Então escrevi ao Marco pedindo se ele me autorizava a publicar o texto. Ele me respondeu:
Querido amigo,
É fantástico o que está acontecendo em torno desse pinot. Esta mensagem prova que as pessoas não são tão ingênuas ou sugestionáveis como se pensa. O enófilo brasileiro está evoluindo, e já existe um nicho de conhecedores refinados, apreciadores de borgonhas. Veja que ele não foi impactado pelo artigo, mas na prática acabou concordando. Isso é honestidade de todos nós: autor, formador de opinião, e consumidor, que soube voltar atrás em seu preconceito. Deve ser motivo de orgulho para alguém como você, que teve coragem de sustentar sua opinião em avant-première (em vez de ficar sobre o muro), ao presenciar essa enxurrada de opiniões concordantes de gente como o Ed Motta e do nicho de conhecedores da Borgonha!
Da minha parte não há problema algum em publicar, é uma honra! Da parte do cliente também não creio haver problema, mas se preferir, seguem os dados para contatá-lo a respeito.
Um grande abraço!
MD
Após meu contato, a resposta de Luis Claudio:
Prezado Didu,
Obviamente que não há problema algum. Se você acredita que a minha mensagem de alguma forma pode contribuir para a divulgação do vinho nacional, especialmente do Marco Daniele, com certeza é uma grande satisfação, uma vez que a minha opinião foi fruto de uma experiência inusitada proporcionada por um grande amigo enófilo, Galba. Aproveito a oportunidade para esclarecer que, a bem da verdade, embora não tenha dado a devida atenção a matéria sobre a degustação de exemplares de Borgonha, onde o vinho do Marco foi introduzido como elemento surpresa (E grande surpresa, como pude constatar pessoalmente alguns dias depois), meu amigo, grande apreciador e conhecedor dos vinhos da Borgonha chegou ao Fulvia por meio da matéria, tendo adquirido alguns exemplares do vinho. Ele mesmo admitiu que foi instigado a degustá-lo em função de seus comentários que exaltavam a qualidade surpreendente do vinho. Mérito seu e humildade nossa no sentido de quebrar os preconceitos estabelecidos em relação ao vinho brasileiro e as vastas opções que temos para descobrir novos produtores.
Um grande abraço e parabéns pelo seu trabalho,
Luis Claudio Fonseca Magalhães
Devo dizer o seguinte: O Brasil tem qualidade para mostrar o que é sem querer imitar ninguém. Não tenho nada contra vinhos globalizados de volume, que procuram o gosto do consumidor novo. É sem dúvida o maior mercado no mundo todo, esse do vinho comum, bom ou não, mas vinhos que não têm personalidade, "secondo me". Para ganhar dinheiro, esse sem dúvida é o melhor caminho no vinho. Mas o vinho de verdade é mais que isso, Vinho é paixão.
Esses mercados como disse Angelo GAJA, são mercados complementares. Nada contra. Porém acho que todos deveríamos incentivar produtores que buscam mostrar o que temos de qualidade e de personalidade e não tentar eliminá-los com burocracias.
Toda a estrutura do vinho no Brasil deveria apoiar, incentivar, estimular, amparar, divulgar e entender estes "experimentos" em vez de tentar prejudicá-los. Como se ajuda? Muito simples:
Os consumidores deveriam provar esses vinhos sem pré julgamentos e aprender o que se está propondo, com isenção.
O IBRAVIN deveria ajudar com programas especiais e amparar esses pequenos produtores.
O Governo deveria aceitá-los como condição de patrimônio cultural e não nivelá-los exigindo padrões de vinícolas australianas a eles, que peça padrões da Bourgogne então.
A ABE deveria ( e disse isso lá a todos ), incluir nem que fosse 1 amostra em sua excelente Avalaição Nacional de vinhos de pequenos produtores. Qual o problema em fazer isso?
Os grandes produtores deveriam ter, uma parcela que fosse, experimental, e mostar que sabem fazer um vinho de personalidade, sem maquiagem, que não muda a voz ao atender o telefone, que se orgulha de ser de onde é, que não se arruma falsamente para ir a uma festa mostrar o que não é para agradar ao cliente. Se têm competência para isso, que mostrem. Só por vaidade, gostaria de ver, sinceramente. O Brasil precisa mostrar seu carater. Precisa dizer ao mundo. Vejam! Este é um terroir brasileiro!